HW

Cadastre-se |

Reflexões linguísticas de um viajante

26.07.2010

Estar de férias é assim, é poder entrar no mundo por outras portas sem se preocupar com onde está a saída.

Foi o vendo o filme “O céu que nos protege” (The sheltering sky), de Bernardo Bertolucci, que reconheci em mim o prazer de viajar. Logo no começo do filme, um casal se encontra com um amigo em um destino qualquer na África. Todos são americanos e por isso resolvem beber algo. Logo, as diferenças entre eles afloram. O amigo se considera um turista, já que pode contemplar o exótico pela janela e voltar com fotos para mostrar. O casal se considera viajante, porque segundo eles, não existe data de volta. Depois que se parte pela primeira vez, a viagem nunca termina. Viajar é para eles poder ver no olhar do outro um ‘eu’ que eles não conheciam. E não existe fotos para mostrar... só reflexões. Meus amigos mais próximos sabem que durante muito tempo fui um radical que não tirava fotos de viagem, escrevia diários misturando línguas, idéias, reflexões... buscando sempre o que no outro me complementava, me surpreendia, me assustava, me encantava. Tomo a liberdade de dividir um dos diários com vocês.
 
Paris, todas as tomadas têm entradas estranhas. Já reclamei na recepção, com meu francês, que a cidade mais visitada do mundo não pode ter uma tomada tão estranha... dois buracos e um pino... Bem, amanhã compro um adaptador... adaptateur... sei lá como se fala isto em francês. Vou tentar adaptateur...
 
Não está fácil encontrar uma loja que venda, nem vou gastar meu tempo com isto... acho melhor procurar um cyber café.
 
“Es que tu connais un lieu ou je peux connecter mon ordinateur a la internet?”
“Un cyber café?”
“Yes, a cyber. Do you know if there is one around here?”
“Oui, la premiere rue a la droit.”
“Valeu (o alivio me fez falar português) ”
 
Reflexão 1: Fluência não está somente em saber as palavras. Está em saber quais palavras são mais oportunas. Cada vez mais ser fluente é ser econômico. Ser conciso e eficaz. Para que tantas palavras para dizer cyber café? Aliás, o homem da banca deve ter achado tudo, menos que eu sabia francês. Porque o francês diria cyber café.
 
Reflexão 2: A fluência é mais mutante que a linguagem. Aliás, seria um equívoco dizer que fluência é uma parte da linguagem. Bem, lá vou eu com meus delírios... mas melhor deixar... A gente fala “Cê ta bom?” para “Você está bem?”. O francês fala “Sé pa” para “Je ne sais pas”... a melodia da fluência não é a mesma da linguagem, nem está dentro dela. Ela é uma revolta dos que falam, uma vingança da oralidade contra a escrita. O mundo oral sempre se reinventa nas esquinas, nos encontrões, nos bares. Às vezes sento, peço um cotê du rhone e fico assim, ouvindo as pessoas falarem e escrevendo o que entendo. O que escrevo é sempre menor, é sempre a nossa tentativa de fazer do concreto algo de valor. O que vale se vai com o vento, como a palavra dita... que não se deixa nunca dominar.
 
Reflexão 3: O próximo Live é sobre linguagem oral... já ouvi francês, espanhol, inglês, alemão, português, brasileiro (ah... os portugueses que conheci insistem que falamos brasileiro)... Existe algo de mortal e intangível na linguagem oral. Algo que nela nasce, reproduz e depois desaparece e permanece em nós sem que saibamos da onde e como veio. Será que passamos na sala de aula esta áurea mágica da linguagem? Será que nossos olhos passam para os alunos a paixão com que cada palavra surgiu? Será que fazemos eles se apaixonarem pelo mistério de palavra surgida?
 
Confissão 1: Um dia eu sei que tudo aparecerá num livro, numa atividade, num debate... ainda não se como. Mas estar de férias é assim, é poder entrar no mundo por outras portas sem se preocupar com onde está a saída.
 
Sérgio Barreto
Diretor de P&D

AVALIAR:

|

IMPRIMIR

Compartilhe |

Comentários

Mostrando de 01 a 50

|

Ver mais

|

Ver todos os Comentários

Indicar

compartilhar

Comentários

Mostrando de 01 a

|

Ver mais

|

Ver todos os Comentários

Comentar

  • Gustavo Telles

    It's no one's property at the same time it's everyone's. It belongs to every and anyone willing to embrace it. It belongs to itself.

  • Fabio Santos

    The beauty of language is that it is no one's property. It is the property of imagination. It has a life of its own and no man can fight its idiosyncrasies.

  • Mauro

    Sérgio..jogou pesado com a beleza e a sensibilidade..obrigado, de coração!

  • Maria Júlia - Curitiba

    Muito interessante mesmo como se dá a comunicação, que vai além das palavras... essas reflexões nos fazem pensar e repensar a linguagem.

  • Nany Bento

    Lindos devaneios! Vou aproveitar tudo para debater no próximo Live!

  • Deli Chibior

    That was great !! tks

  • Grace Fernandes

    I've just got more motivated for reading ur reflexions on a Monday morning ;-) and can't wait till next Live...

  • Max- YOUmove Paulista

    Talk about creative idleness ! Thanks for sharing these invaluable insights Barreto. Keep it up and you'll have to deliver a lecture when you get back. lol Laters

  • Marcia Frantz

    Saudades de vc chefinho e da sua luz nas nossas 'viajações' (sometimes more for tripping than travelling - lol)!!!!!